A parte mais triste da China: A Praça da Paz Celestial, em Pequim

Para começar, confesso que só tenho coragem de postar sobre esse assunto agora que estou bem longe da China e não pretendo voltar tão cedo. Por lá, os blogs que falam de assuntos “proibidos” são rastreados e tirados do ar e não é bem esse o destino que eu quero dar para o meu País das Maravilhas.

Você deve estar pensando: “como assim, assunto proibido?”. Bem, na China não se fala de política, nem de governo, nem de polêmicas, nem de acidentes, nem de democracia, nem de corrupção, nem de…..e por aí vai. A nossa guia chinesa revoltada Angela (Ming Ming alguma coisa) nos avisou de cara que ela já estava farta de proibições e queria soltar todas as suas reclamações no nosso ônibus de turismo. E quem ficasse entediado de ouvir, que dormisse. E soltou toda a sua raiva de raízes comunista para cima da gente. Uau, belo start para uma viagem!

No começo, eu fiquei revoltada com ela. Afinal, eu queria ter o direito de chegar em um país novo e tirar minhas primeiras conclusões sozinha, mas essa não foi uma opção disponível. Não teve um viajante que desceu daquele ônibus do mesmo jeito que entrou. Todos nós ficamos calados, impactados, reflexivos por um bom tempo. E foi assim até os últimos dias em Pequim, bem no final da viagem. A cada guia, um novo susto, a cada cidade, uma nova surpresa. Quando chegamos na Praça da Paz Celestial em Pequim, é óbvio que não foi diferente.

Nosso guia chinês extrovertido da vez era um homem viajado e até certo ponto, falante. Logo que todos nós começamos a caminhar unidos na Praça, rumo ao Mausoléu do Mao, um dos turistas disse: “Se você não quiser não precisa responder, mas foi aqui que teve aquele evento em 1989?”. Eu estava colada na bandeira do Brasil do guia chinês falante para ouvir a resposta, mas um silêncio triste tomou conta do grupo. O chinês de Pequim não parou, não riu, não falou. Ele continuou caminhando como se não tivesse nos escutado.

Tentamos mais uma vez, não acreditados daquela situação. Como seria possível estar bem no meio da Praça da Paz Celestial, onde aconteceu aquela cena famosa e inesquecível do estudante enfrentando o tanque de guerra e não falar naquilo? Bem, essa é a China e é preciso respeitá-la, mesmo em seus silêncios e tristeza.

Praça da Paz celestial

E assim, nos separamos do guia e cada um caminhou para um lado. Houve quem seguisse rumo ao museu, ao parlamento, a mausoléu. Eu segui para uma das entradas da Cidade Proibida, que é um dos templos mais bonitos que visitei na minha vida. Eu queria um pouco de beleza, por pouca e mísera que fosse, ainda mais embaixo daquele céu cinza de final de tarde. Porque senão eu iria cair no choro.

Não saber se o guia não nos respondeu porque ele não podia, não queria ou não sabia do que estávamos falando foi, de longe, uma das coisas mais tristes que já me aconteceu em uma viagem. Um pouco depois daquele momento único e eu já estava caminhando de volta para o ônibus, afinal não havia muito o que se ver. Só havia alguns chineses correndo de um lado para o outro e um grupo de soldados naquele chão de cimento gigante, a frente da figura do Mao. Mas o silêncio….que silêncio. Eu nunca vou esquecer o silêncio do guia que calou todas as nossas dúvidas sobre o que a China sabe ou não sabe sobre si mesma. Mas afinal, do que nós sabemos? Das dores da nossa ditadura, dos massacres, dos assassinatos na nossa terra?

Engoli a seco e usei a passagem subterrânea para atravessar a rua. Ali, um pequeno e infeliz grupo de pedintes com deficiências físicas e mentais me assolaram nas sombras, quando eu achei que não poderia ficar pior. No fundo, uma sanfoninha desafinada vinha de algo que deveria ser um aprendiz jovem de chinês cigano, mas eu nem aguentei virar o rosto para conferir. No meio do meu mergulho legítimo por toda a melancolia pela história violenta do ser humano, fui acordada do transe com um cutucão. Assustada, olhei para o lado e vi um chinês muito baixinho vendendo um boné com uma estrela vermelha estampada no meio. Achei que meu pai pudesse ver alguma graça naquilo, mesmo no meio da melancolia de todos os sentimentos sombrios que abraçam a Praça Celestial desde 1989. Rapidamente tirei os 10 iuanes da bolsa e dei para o rapaz, como se aquele ínfimo valor de dinheiro chinês pudesse comprar alguma paz de espírito no final de tarde pesado. “Você está cansada, amor. Amanhã vai ser melhor”, me disse o maridão, quando olhou para meu rosto abatido.

E foi, é, o dia seguinte foi melhor sim. Mas naquela tarde eu entendi que tristeza é tristeza em qualquer língua, até mesmo em chinês. E que as vezes a gente se cala, simplesmente porque não consegue falar das coisas que mais nos machucaram.

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