Pensamento do dia,  Ser uma escritora é,  Sonhos e devaneios

É preciso arrumar tempo e lamber as feridas (e quanto antes, melhor!)

Escrever se tornou o meu maior deleite, assim, de repente. Eu sempre gostei de me expressar, seja pela fala, música ou escrita, eu gosto muito de ler coisas variadas, conversar assuntos diversos com todos os tipos de pessoa. Escrever uma história, no entanto, me levou a um outro nível de claridade, que me pareceu até obsceno de tão verdadeiro. Esclarecedor e perturbador, como nenhum outro processo.

Enquanto vivi a eloquente jornada de contar uma história do começo ao fim eu descobri coisas fantásticas, antes nunca percebidas por mim. E agora que estou na revisão das minhas 450 páginas de melancolia grega misturada com sabedoria e prazer feminino eu concluí que só pude aprender porque eu vivi tudo de novo na pele da protagonista da história. E quem aí não queria ter a chance de voltar no tempo com a cabeça de hoje para apagar as cagadas de ontem?

Bem, todos nós, ou quase todos. No entanto, já vimos em inúmeros enredos de filme que, no final das contas, a mão do destino vai tomar o controle de volta e nossas atitudes diferentes só vão levar a erros variados, mas não necessariamente ao bendito acerto. Então, por falta de comprovações e evidências de ordem prática, eu prefiro deixar o assunto “viagem no tempo” perdido no espaço. E vamos ao que interessa.

Quando estamos escrevendo uma história o processo é muito diferente e tenho que dizer, bem sofrido. A começar pela dúvida enorme que ronda a cabeça do autor no momento da concepção do protagonista e de sua vida, sua sina, seus defeitos e suas glórias. Tem família? Mora onde? Quais os seus valores? E o tipo físico?  Não achei que seria tão difícil assim, mas me parece que muito pouco sabemos até que colocamos “a mão na massa”, não importa o assunto. Devia ser fácil contar a história de um herói, não é? Mas será que somos heróis de nossas próprias histórias ou somos meros figurantes?

Certa de que eu era a protagonista da minha vida enquanto escrevia a história coloquei a pobre da personagem principal no meio de muitos rolos complicados, inúmeros testes dolorosos e joguei ela no chão até que toda a minha sede de vingança estivesse satisfeita. E ela, como havia de fazer, se levantou no tempo certo e lambeu suas feridas logo após cada tombo que levou. E seguiu se arrastando por aí, de um jeito ou de outro, com a cabeça ainda erguida, mas a lembrança da dor pesando no peito.

Quando percebi que eu escrevia sobre uma menina mulher que refletia sobre seus atos, inconscientemente também comecei a pensar nas coisas que eu fazia na minha vida. No ontem, basicamente, porque a gente sempre acha que hoje está-tudo- muito-bem-obrigado. Mas lá atrás, puta merda, como eu era louca, como eu era bagunceira…. E não podemos voltar no tempo, então esquecemos o assunto. Mesmo porque… dói pensar nisso.

Aí está, descobrimos que sentimos dor porque obviamente temos feridas. Elas podem ser antigas, da nossa infância ou podem ser recentes, podem ter surgido depois daquele último término complicado. A gente passa pela vida toda sem se dar conta do que realmente nos machucou, sem assumir que sofremos, que fomos magoados. Eu vivi assim por muito tempo. Na tentativa desesperada de não querer ser vítima e porque afinal de contas eu queria ser a heroína (orabolas!) da minha história, eu passei anos olhando para situações com desdém, com raiva, com desprezo. Eu vivi como se aquilo não me importasse, como se o passado fosse apenas um detalhe desagradável facilmente ignorado na minha bolha cintilante. E quem nunca?

Eventualmente, vamos tomar uma pancada na cabeça e vamos ser obrigados a refletir sobre as dores e as feridas abertas. Anda, se liga, porque você está tendo mais uma chance de admitir o sofrimento e enxergar machucado, porque só depois desse reconhecimento legítimo é que será possível seguir em frente. Este é o importantíssimo momento de lamber a ferida, limpá-la com cuidado e deixar o ar  entrar e esperar o tempo agir. Só assim, temos uma chance real de sermos felizes no hoje e no sempre. Porque você bem sabe que a vida vai continuar. E o sol vai nascer de novo amanhã.  Nos resta descobrir se você vai estar inteiro ou não.

Bem, eu fiz a minha escolha. Eu sei que vou me curar, eu tenho fé que dias de paz me esperam no horizonte. E eu desejo que, eventualmente, você se sinta assim também porque este é o melhor jeito de seguir de mão dada com a heroína de qualquer história, pela estrada da sua vida. É o amor que salva, que é começo de tudo. E é ele que, inevitavelmente, vai garantir o final feliz.

lulu em Santorini
Lulu em Santorini

Ei gente, aqui é a Lulu. Sou de família grega e italiana e morei em Santorini. Em 2014, tive o prazer de me casar na ilha de Santorini, lugar mais lindo do mundo! Moro em Amsterdam e viajo todo verão para a Grécia, para realizar o sonho de quem quer casar em Santorini. Pergunte que quiser. 😉

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