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Konstantinos Kaváfis: o maior nome da poesia grega

No último sábado tive a grande oportunidade de participar de um debate seguido da exibição de um filme fantástico no Instituto Areté, Centro de Estudos Helênicos. Adoro esses eventos e o Areté tem um espaço muito legal aqui em São Paulo então sempre que posso, eu compareço para aprender um pouco mais sobre a cultura grega.

“A noite em que Fernando Pessoa encontrou Konstantinos Kaváfis” (The night Fernando Pessoa met Konstantinos Kavafis) é um inspirado filme do cineasta grego Stelios Haralambopoulos, feito em 2008 e ainda pouco conhecido no Brasil. Foi uma oportunidade única para mergulhar mais a fundo nas obras de dois dos maiores escritores dos nossos tempos. O filme é um ficção mas tem toda a pinta de documentário e deixa o telespectador na maior dúvida do que é realidade e do que é sonho.

O professor Rogério Hafez (que também é ensaísta, tradutor, consultor editorial e autor de obras didáticas de literatura portuguesa e brasileira) apresentou de maneira bela e esclarecedora sobre os pontos semelhantes entre os dois artistas e sua explicação foi vital para o entendimento total do filme. Entre uma coisa e uma outra, tivemos um break com muito vinho, pão azeite, azeitonas, frutas….um verdadeiro banquete grego. Conheci pessoas bacanas e fiquei feliz de fazer parte de algo assim em São Paulo, meu novo lar, já que em BH a gente vivia nos eventos da comunidade grega e dos amantes da Grécia.

Fernando Pessoa e sua maravilhosa obra é de conhecimento de grande parte dos brasileiros então gostaria de falar um pouco mais de Konstantinos Kaváfis para vocês entenderem porque é que alguém faria um filme baseado no encontro dos dois. Bem, Kaváfis nasceu em Alexandria, em 1863 e foi um poeta totalmente grego, apesar de ter nascido em terras egípcias, pois ele fazia parte da numerosa colônia grega da cidade.

Kavafis

Para não parecer que eu copiei tudo do Wikipedia, eu vou falar do que eu entendi e aprendi no último sábado com o debate e filme. Konstantinos Kaváfis era metódico, perfeccionista e não publicou nenhum livro em vida, pois ele gostava de escrever e enviar suas belas poesias em forma de folheto para seus amigos apenas. Devido a algumas reviravoltas da vida, ele morou na Inglaterra e na antiga Constantinopla (Istambul) e depois retornou para Alexandria. Ele, assim como Pessoa (que nasceu em Lisboa e logo se mudou para a África do Sul) publicaram alguns de seus primeiros trabalhos em línguas que não eram sua lingua-mãe e uma certa extraterritorialidade pode ser observada em seus trabalhos. Os dois escritores são reflexivos e pensadores no transcorrer da sua obra e escreveram algumas vezes como se fossem outros personagens, seja eles inventados (Pessoa) ou baseados na mitologia helênica (Kaváfis).

Eu achei interessante que ambos tinham um olhar apaixonado voltado para suas pátrias, um olhar de “nativo” e ao mesmo tempo de “observador” atento, como se suas mentes brilhantes pudessem transitar para dentro e fora de seus mundos com muita fluidez e naturalidade. Enfim, eu adorei. Konstantinos Kaváfis também se considerava um gênio, mas entendia que talvez sua obra fosse muito moderna para a época. Ele questionava alguns valores como religião, patriotismo e heterosexualidade e seus poemas eram dotados de um erotismo discreto e segundo alguns, de origem homosexual.

No Areté, o professor Rogério nos apresentou a um poema fantástico de Konstantinos Kaváfis que me pôs a pensar sobre a vida de todos nós. Bom, pelo menos na minha, na jornada sem fim que se apresenta diante de nós, um amanhecer após o outro. E me fez lembrar que, acima de tudo, os sonhos e metas são importantes para nos manter no caminho, mas que o caminhar é ainda mais importante. Apresento a vocês, o poema Ítaca, em uma das traduções disponíveis, tirado do site: http://www.org2.com.br/kavafis.htm. E encerro a semana assim, com um desejo sincero que vocês possam, assim como eu, ver beleza e se inspirar na vida e na arte de grandes pensadores que respiraram o mesmo ar que nós respiramos. 🙂

ÍTACA 
Konstantinos Kaváfis
(Trad. José Paulo Paes)

Se partires um dia rumo a Ítaca, 
faz votos de que o caminho seja longo, 
repleto de aventuras, repleto de saber. 
Nem Lestrigões nem os Ciclopes 
nem o colérico Posídon te intimidem; 
eles no teu caminho jamais encontrará 
se altivo for teu pensamento, se sutil 
emoção teu corpo e teu espírito tocar. 
Nem Lestrigões nem os Ciclopes 
nem o bravio Posídon hás de ver, 
se tu mesmo não os levares dentro da alma, 
se tua alma não os puser diante de ti.

Faz votos de que o caminho seja longo. 
Numerosas serão as manhãs de verão 
nas quais, com que prazer, com que alegria, 
tu hás de entrar pela primeira vez um porto 
para correr as lojas dos fenícios 
e belas mercancias adquirir: 
madrepérolas, corais, âmbares, ébanos, 
e perfumes sensuais de toda a espécie, 
quanto houver de aromas deleitosos. 
A muitas cidades do Egito peregrina 
para aprender, para aprender dos doutos.

Tem todo o tempo Ítaca na mente. 
Estás predestinado a ali chegar. 
Mas não apresses a viagem nunca. 
Melhor muitos anos levares de jornada 
e fundeares na ilha velho enfim, 
rico de quanto ganhaste no caminho, 
sem esperar riquezas que Ítaca te desse. 
Uma bela viagem deu-te Ítaca. 
Sem ela não te ponhas a caminho. 
Mais do que isso não lhe cumpre dar-te.

Ítaca não te iludiu, se a achas pobre. 
Tu te tornaste sábio, um homem de experiência, 
e agora sabes o que significam Ítacas. 

ilha por do sol

Ei gente, aqui é a Lulu. Sou de família grega e italiana e morei em Santorini. Em 2014, tive o prazer de me casar na ilha de Santorini, lugar mais lindo do mundo! Moro em Amsterdam e viajo todo verão para a Grécia, para realizar o sonho de quem quer casar em Santorini. Pergunte que quiser. 😉

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