Morar nas ilhas gregas

Queridos leitores,

eu tive a coragem e o prazer de sair do Brasil em busca de mar azul e casinhas brancas. Com muita sorte e uma dose grega de drama, vivi nas ilhas de Samos e Corfu e por quase dois anos morei na inesquecível ilha de Santorini. Abaixo posto pequenas partes do meu livro  Noiva de Santorini para aqueles que tem o sonho de um dia morar ou vistar as ilhas gregas. 🙂 Espero que vocês curtam!

“No mesmo dia em que o vovô foi embora, arrumei as minhas malas e me despedi de Mykonos. Chorei de alegria quando dei as costas para a ilha grega da perdição, em um barco rumo a Santorini. Ia ser a minha primeira  vez  na  ilha  do  vulcão,  na  terra  perdida  de Atlantis, da perdida e submersa Atlantis. Não há ser humano   que   não   se   curve   frente   à   magnitude   dos penhascos altíssimos de Fira, a capital de Santorini, ou que não se espante com as estradas inclinadas que liga o porto da ilha a todo o resto, como quem liga a Terra ao céu. Assim, senti nos primeiros segundos quando avistei o vulcão, que aquela era a função de Santorini, a de uma ilha de salvação, que eleva os homens a semideuses, as mulheres a anjos do céu, e o seu pôr do sol, que eu ainda não sabia, era a mais bonita carta de amor que nosso Senhor poderia entregar aos homens.

E quando meus olhos aflitos pousaram em Santorini pela primeira vez, eu finalmente senti que estava no lugar certo. Independente do alto custo que o vulcão cobra às almas inocentes que ali decidem se abrigar, eu percebi que naquela ilha meus olhos enxergariam, meus ouvidos ouviriam, minha língua falaria, meu coração bateria da maneira mais intensa e vulcânica possível. E de um jeito sombrio e belo, eu estava certa.”

E + um trechinho especial para vocês…

“Do mesmo jeito surpreendente que começou, quando a temporada de caça acabou até senti saudade daqueles dias, de toda adrenalina que era ficar abaixada atrás de alguma pedra grande, de tocaia, esperando pelo bando de pássaros africanos, e de toda a emoção que sentia depois que, com infinitos tiros errados, eu conseguia acertar pelo menos um animalzinho indefeso. Senti saudade até do que não era bom. Do nojo e horror quando via Nikos tirar as tripas dos pequenos pássaros, antes de colocá-los na sacola que eu ia levar na garupa da moto até a nossa casa. Saudade das tardes em que, orgulhosos do nosso trabalho, rodávamos a estrada de Eborio a Fira, entregando um casal de pássaros abatidos nas casas dos parentes e amigos, para que todo

mundo soubesse que éramos exímios e bravos caçadores. Para todos os nativos relembrarem de como era o gosto da carne recentemente abatida e, acima de tudo, de uma vida bem vivida.

Naqueles  dias  percebi  que tinha sido  muito  especial aprender  a  viver  exatamente  como  os  gregos  de  ilha vivem, pelo menos por um tempo. Entender que o homem ali comia o que a terra lhe oferecia, aquele homem que se metia nas caçadas mais perigosas, pelas profundezas do mar ou pelos poucos campos da ilha. O homem da ilha gostava   de   comer   as   ervas   frescas   que   davam   na montanha, e também gostava de chamá-las simples e pragmaticamente de ervas da montanha, quando colocava o prato de mato verde cozido e temperado na mesa para seus entes queridos.

O santorinhós gosta de viver de acordo com as estações do ano, respeitando a beleza e a escassez de cada tempo, adorando as aventuras e perigos que cada temperatura lhe oferece.  Como  em  uma  brincadeira  de  pique  esconde eterna com Deus, o nativo da ilha vive no limite de todas as experiências que faz parte, correndo de moto sem capacete  nas  estradas  precárias  da  ilha,  fumando  dois maços de cigarro forte todo dia, ou resolvendo seus problemas com uma arma na mão. Ele brinca com Deus, se oferece em sacrifício diariamente, e agradece repetidamente a cada manhã, quando no seu primeiro respiro percebe que mais uma chance lhe foi dada.

O  meu  homem  da  ilha  vivia  assim,  acima  de  tudo porque sentia bem forte no peito que quando chegasse a hora de partir o Senhor lhe levaria com glória, depois de uma bela explosão de fogos oriundas do vulcão mais imponente que ele conhecia. Eu entendi que a presença insistente do poderoso vulcão, que pode ser visto de qualquer parte da ilha, mudava totalmente a perspectiva de uma vida inteira. Naqueles dias de caça, entendi que a pressa de Nikos em me ter e construir uma vida ao meu lado era fundada na única verdade absoluta de que o ser humano, por mais rude que possa ser, tem consciência. A de que não ficaremos aqui para sempre.

Em toda sua correria e afobação, eu admirava e amava Nikos cada dia mais, mesmo e apesar de todas as nossas discussões bobas. Mesmo porque, nos assuntos importantes para o coração nos entendíamos muito bem.”

Santorini
Ruas de Santorini
Santorini
Praia de Perissa, Santorini