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Podemos entrar no mesmo rio duas vezes ?

Toda vez que chego na Grécia, me lembro dos motivos que me fizeram querer viver aqui. Já no aeroporto sinto aquela vibração diferente, o falatório alto, as risadas, as conversas que parecem discussão, os guardas com gel no cabelo. Lembro de outras tantas viagens por todo o território grego e fica mais evidente ainda o sinal dos tempos: nesta minha nova volta para a Grécia a minha situação é bem diferente. Vim com a minha mama, finalmente não estou a trabalho e temos tempo para muitas comprinhas e especialmente para toda a organização do meu casamento, um verdadeiro casamento grego, em Santorini. A nossa felicidade é plena e não há mal tempo que nos desanime.

Quando respiro em Atenas, penso na família. Definitivamente, o elo mais forte que nos atrai para a Grécia é a nossa família em Atenas. Todo o carinho, a festa, as comidinhas gregas ligadas a todas as confusões que toda família (grega) tem. As conversas altas que vararam a noite nos últimos dias e as pouquíssimas horas de sono que tivemos aliadas ao cansasinho do jet lag me fazem cochilar no navio para Santorini.

Ah, Santorini….faz algum tempo que não te vejo. Lembro do meu susto quando avistei o porto pitoresco da ilha pela primeira vez e me perguntei se havia algum jeito de carros e ônibus chegarem lá.  Logo descobri que aquela estrada impossivelmente inclinada em zigue zague que me levaria ao topo da ilha era o começo de uma das mais belas (mas não pouco dramática) jornadas, na ilha do rei vulcão.  Achei que quase poderia tocar o vulcão quando olhei da caldera, estiquei o braço das sacadas de cafés e de barcos de pescaria.

Santorini continua a mesma. A praia vermelha, a praia branca, a praia preta, a lava. A lava que está presente em todas as partes, do chão às praias, dos acessórios aos vinhos. E as pessoas, a lava toca as pessoas em Santorini. Se você prestar bastante atenção pode até sentí-la e quem sabe, com sorte, ser tocada por ela. A lava, por mais que cristalizada e seca agora, é fruto de calor, de quentura, de explosão e de descontrole, que é exatamente como eu descreveria o povo de Santorini. E será que não somos todos pelo menos um pouco lava/santorinhós!?

Toda vez que venho para a Grécia me lembro porque quis voltar para o Brasil. A mesma mão que serve o café frappé delicioso, pode te empurrar em várias ocasiões sem nuuuuunca pedir desculpa. As discussões podem facilmente virar bate-bocas intermináveis e até pancadaria em lugares públicos como ônibus e lojas de departamento (true story!). Toda esta “delicadeza” grega, que é tão comum e até previsível ainda me incomoda, visto que meu lado brasileiro nada ou muito pouco se assemelha com a cultura grega. E assim, meu dois lados se entreolham espantados. O remédio para lidar bem com isto tudo? Basta lembrar que não é nada pessoal. E o jeito como os gregos se tratam, sem muito “tato” e com muita “franqueza” é facilmente compensado por tantas outras gentilezas, sorrisos, presentes, convites sinceros que só os gregos sabem fazer e einai olá kalá (está tudo ok).

Da minha parte, posso dizer que amo o lugar. A minha mineirês  me fez sofrer quando morei aqui, mas hoje meu lado grego me fortalece onde quer vá. Parte de mim fica mais viva e bate forte no peito assim que desço no aeroporto, aquele lado passional, que fala alto, que destrata e não liga, que come fartamente e toma café o dia inteiro. Já a parte da inocência, da timidez e da simpatia gratuita e natural que boa parte dos brasileiros tem, esta  outra parte parece que morreu aqui, há muitos anos.

Toda vez que venho na Grécia quero ficar, mas basta poucos dias e fico tranquila  para ir embora. A Grécia nada mais é do que um pedaço maior do que outros pedaços do quebra cabeça da minha vida. E que eu insisto em trazer comigo, sempre, sempre. Não importa a crise ou a modernidade, ela parece a mesma, mas eu, mudei mais que demais. Olho para as expressões nos rostos dos santorinhós e ao mesmo tempo que entendo e quase esboço um sorriso, sinto um alívio de não fazer mais parte disto. É uma lembrança boa, mas tão distante que mais parece uma aquarela antiga das casinhas brancas no alto do penhasco cercado pelo mar azul infinito, posicionado ao redor do rei vulcão.

Sejamos justos: a Grécia representa meu começo, com minha família, meu meio, com meu casamento e de muitas maneiras, representa o fim de tantos momentos que não voltam mais. E que fique claro que não queremos entrar duas vezes no mesmo rio. *

* Referência a famosa citação do filósofo grego Heráclito: “Um homem não pode entrar no mesmo rio duas vezes”.

Ei gente, aqui é a Lulu. Sou de família grega e italiana e morei em Santorini. Em 2014, tive o prazer de me casar na ilha de Santorini, lugar mais lindo do mundo! Moro em Amsterdam e viajo todo verão para a Grécia, para realizar o sonho de quem quer casar em Santorini. Pergunte que quiser. 😉

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