Ah, doces gregos e amores gregos!

Queridos leitores, é mais uma época de mudança em minha vida 🙂 e hora de revirar os guardados e separar o que quero e não quero levar para minha próxima casa. E quando a gente acha um dos nossos textos antigos e quer postar…vale, não vale?

Aí vai um dos meus textos sobre doces gregos e amores gregos: este é especial para vocês que me escrevem pedindo mais e mais sobre amor na Grécia! 🙂

Era uma noite clara e de vendaval, eu estava em Santorini, em mais uma viagem mágica pela Grécia. 

Quando abri os olhos, ainda deitada, percebi que algo tinha mudado dentro de mim. Uma força incomum me jogou para fora da cama. Era mais um terremoto, daqueles que já tinham me sacoalhado muitas vezes em Santorini? Não, definitivamente não.

A voz do chamado, que eu não sabia se era carinho de mãe, uivo da terra, retorno ao lar, vento de amor ou missão do destino, a voz sedutora e ensurdecedora, me levou para fora do quarto a passos curtos. Quando abri a porta da varanda vi a grande montanha que escondia a praia levemente iluminada e pensei que não conhecia uma lua tão poderosa a ponto de iluminar a Terra como um sol da noite. Então entendi que não era a luz da lua que me tocava na varanda daquele pequeno quarto na ilha grega de Santorini, mas a luz do maior astro deste mundo, o Sol da terra dos deuses, que anunciava sua soberania acima de tudo e de todos, naquele crepúsculo assustador e perfeito.

Esperei mais alguns minutos de pé na varada, com os olhos vidrados na montanha que se erguia à minha frente, porque sabia que atrás dela tinha um mar sem fim, leve e tranquilo, estranhamente forte e cintilante, que liga todas as ilhas gregas do mediterrâneo. Para mim, o mar é meu ar, minha casa, minha visão favorita. Mesmo sabendo que a montanha bloqueava a minha visão, daquela pequena varanda eu enxergava o mar. Eu era capaz de sentir seu cheiro, de imaginá-lo, de senti-lo, de vê-lo, de me perder em sua plenitude.

Enquanto ainda estava na varanda, os primeiros raios do poderoso sol se jogaram na escuridão da noite tardia, enquanto todo o resto do céu anunciava sua forte presença no horizonte. E me lembro bem das cores daquele céu, eram tons do galaktoburiko, o doce grego que eu mais gosto, uma torta folhada de leite. Enquanto eu observava aquela mistura de tons de ouro e baunilha que abraçavam a linha fina do horizonte da ilha, senti um ímpeto incontrolável de buscar algo ainda mais doce do que o céu da manhã na Grécia.

Decidi encontrar um galaktoburiko às cinco e meia da manhã, na ilha de Santorini. Eu queria sentir o doce na minha boca, o gosto do creme, da nata, da baunilha, a calda de açúcar, a massa folhada, a intensidade da canela. Era isso que a voz dentro de mim gritava. Galaktoburiko! Na saída do hotel, quando o vento bateu nos meus ombros, senti um arrepio atravessar o corpo inteiro, mas não me arrependi de ter respondido ao chamado misterioso de retorno ao meu lar. O chamado era tão forte e agudo, que mal tive tempo de colocar uma jaqueta antes de sair do quarto. Caminhando pela rua avistei um fournos, a padaria grega, aberta durante as vinte e quatro do dia, há apenas vinte passos do hotel. Não pensei duas vezes, não questionei a certeza dos meus pés, não tive medo de atravessar a rua escura, nem vergonha de desviar dos jovens que pareciam voltar das festas selvagens da ilha grega da perdição. Não me importei, porque achei que estava acima daquilo. Não dei atenção, porque me senti imbatível. Não me incomodei, porque, honestamente, senti que tinha sido enviada até ali, e tudo que eu mais queria era um doce de nata grego.

Obcecada e embalada por aquela vontade absurda e incontrolável, finalmente cheguei ao balcão, ainda me desviando de todas as belas meninas animdas e bêbabdas. Aliviada, pedi um galaktoburiko como quem pede o remédio para curar seu mal mais grave. O senhor simpático, dono do estabelecimento, disse encabulado e em grego de ilha, que tinha acabado de vender o último pedaço do doce grego de massa folhada recheado de nata. Respirei fundo com uma ponta de melancolia e olhei a vitrine do balcão, disposta a encontrar algum doce que saciasse minha fome ignorante e desmedida naquela hora da madrugada.

Sem conseguir me decidir, agradeci e saí da padaria. Na rua, vi que o sol continuava fazendo o serviço de embelezar a vida dos seres humanos, como astro-rei, inundando os céus das ilhas gregas com toda a doçura das cores mais delicadas da cartela do Deus Uranós, o Deus dos Céus. Sorri ao pensar nisto, pois achei que tinha acordado uma Deusa poderosa, mas eu nunca seria nada além de uma mortal melancólica na terra dos deuses, e não tinha conseguido nem realizar meu primeiro desejo de comprar o doce que eu queria.

“Etsi einai i zoí, (assim é a vida)”, pensei como os gregos de ilha sábios e conformados concluem, toda vez que esbarram com um problema maior do que a si mesmos. “O que é meu e o que não é, só meu Deus sabe”, completei o pensamento num longo suspiro, enquanto admirava a montanha que tanto me intrigava e tinha me chamado para a rua naquele sol nascente.

 – Signome, (desculpe)! – um homem de voz grossa interrompeu meus pensamentos – pode ficar com meu doce.

Quando me virei, pela primeira vez vi aquele par de olhos azuis da cor do céu de agosto. Seu rosto era bonito porém sofrido, sua alma era rude, mas ele se dirigiu a mim docemente, apontando o galaktoburiko na minha direção.

De alguma forma, em frações de segundos, percebi que aquele homem estava amparado e abençoado pelo Deus Uranós. “Etsi einai i zoí (assim é a vida)”, pensei novamente, enquanto olhava incansavelmente dentro do mar-céu daqueles olhos azuis.

Naquela madrugada em Santorini, a Deusa que tinha despertado dentro de mim pegou o doce sem hesitar. E então, segui minha jornada. Ali, caminhando na terra seca que é a lava adormecida de um vulcão, eu já sabia que os céus sobre as nossas cabeças nunca mais seriam os mesmos, independentemente de onde estivéssemos.

Ah, os doces gregos!

Uma vida pelas ilhas gregas

Queridos leitores!

sei que tem tempos que não posto reflexões sobre meus dias na Grécia e sobre a vida como ela é, então vi este pedacinho do meu próximo livro e quero compartilhar com vocês…:) Espero que gostem! O lançamento dos outros livros da minha trilogia serão lançados muito em breve, avisarei vocês por aqui!!

Vida em Santorini Grécia

“E se a vida for apenas uma combinação aleatória de acontecimentos desconexos? O que acontece quando você acha que tem o direito de catalogá-los, ordená-los e criar uma correlação entre eles? Provavelmente, você enlouquece, porque nada parece fazer sentido. E foi isso que aconteceu comigo quando vivi nas ilhas gregas.

Depois de morar na ilha de Santorini, de pisar na lava do vulcão e de respirar o ar da caldeira, tive certeza de que a vida não fazia sentido. Pois veja bem, em Santorini a terra e o mar se chocam, a lava domina o mundo subterrâneo, os terremotos abrem crateras e partem a vida das pessoas diariamente. Se você olhar com atenção, vai perceber que o cenário belo e paradisíaco se modifica constantemente, a beleza e a feiura se confundem a cada instante. E independente dos terremotos que nunca se anunciam, a jornada continua, sem sentido aparente e imperfeitamente divina.

Depois de algum tempo vivendo em Santorini, acabei por internalizar aquela conformidade grega frente as mudanças constantes, afinal elas eram forças muito maiores do que qualquer ser humano. E acima de tudo, acabei por entender que os gregos são extremamente fortes e persistentes, sãos feitos de chama, são pessoas que nunca vão parar de queimar. Eles vão explodir com a força descomunal de um vulcão em erupção pela eternidade afora.

E enquanto ainda estava a observar aquele pequeno e curioso cosmos dia após dia, notei que o vulcão esconde sua verdadeira força na maior parte do tempo. De fora, parece apenas um monte de terra despretensioso e adormecido, mas por dentro continua a queimar, insistentemente.

Como é possível viver em paz se sua moradia foi construída em cima da ira sonolenta de um vulcão que causou catástrofes de proporções bíblicas? Para começar, é preciso não temer as explosões, os terremotos e os dias que virão. Afinal, a sincronia perfeita e maluca do Universo criou os seres humanos também altamente perigosos e explosivos.

Dentro de nós existem histórias intensas, medos impronunciáveis e amores gigantescos congelados pelo tempo. E, bem como o vulcão, é apenas uma questão de horas, dias ou anos, para que tudo voe pelos ares. Etsi einai i zoí (esta é a vida, em grego), como os sábios e conformados gregos de ilha concluem, toda vez que esbarram com um problema maior do que a si mesmos. Estaremos por aqui até o dia que Deus quiser.

Um suspiro encorajador, um sorrido tímido no rosto e um último pedido. Quando eu morrer, jogue minhas cinzas na caldeira de Santorini, para que eu possa enfim, descansar ao lado das chamas ardentes das almas livres dos nativos da ilha de Atlantis. Mas até lá, me deixe dançar zeibekiko toda vez que sentir dor, me deixe quebrar pratos quando sentir alegria. Me permita, enfim, festejar a jornada e viver intensamente como só um grego sabe fazer”.

Vida em Santorini Grécia

Vida em Santorini Grécia

Vida em Santorini Grécia

Vida em Santorini Grécia

Todas as contradições de uma vida na ilha grega de Santorini

Sobre as contradições que envolvem uma vida em Santorini
Quando piso em Santorini, meu coração se alegra, pula entusiasmado assim que enxergo o vulcão. E no segundo seguinte, ele se quebra, espatifa em mil pedacinhos porque me lembro que a vida aqui pode ser boa, maravilhosa, mas que na maioria das vezes é muito difícil se comparada a vida em outros cantos do mundo. Minhas amigas do Brasil vivem a perguntar: “não quer voltar a morar em Santorini?” enquanto minhas amigas gregas que moram aqui dizem “Ainda bem que você foi embora! Queria ir também! Ver o mundo, viver a vida…aqui é difícil, você sabe como é.”

Sim, eu sei como é. Senti na pele todas as dificuldades que os turistas nunca poderiam imaginar, ouvi coisas que quem sonha em morar em Santorini nunca aguentaria ouvir. A vida aqui é dura, gente, e conviver com as peculiaridades das tradições locais e com as limitações malucas de uma ilha que na verdade é vulcão no meio do mediterrâneo não é mole!

Mas ainda assim, digo sem pensar duas vezes: Amo Santorini e vou voltar sempre que puder 😉 Amo o cheiro da ilha, que as vezes é um aroma de comida saborosa nativa, (tomatokeftedes, amo!) e outras vezes é o cheiro forte do fogo, da brasa, que queima nas varandas das vilas traidicionais ou nas praias, quando os nativos fazem seus churrascos santorinhós. O cheiro do vulcão, da caldeira de Fira, da praia de Perissa me acompanha, enquanto a música de Santorini faz sua parte para tornar o cenário o mais louco e mágico possível. O Rádio toca as canções mais sofridas da Grécia, mas só toca quando quer, porque o sinal não é constante. Já a música inebriante e romântica da caldeira embala os corações apaixonados, em jantares sofisticados e vistas de arrepiar. E claro, falando em arrepio, lembro-me do barulho assustador e altamente familiar que rompe as noites do sul da ilha, seja na praia de Perissa, Perivolos ou Agios Giorgis, ou na vila de Eborío ou Megalochori. O Vento que leva tudo, derruba as cadeiras e faz a gente acordar no meio da noite achando que o mundo vai acabar antes do amanhecer. Enquanto isso, a neblina cobre a lua cheia na vila de Firá e cenário mais belo e assutador não há! E se não temos terremoto hoje, vamos curtir, porque amanhã – só Deus sabe!

É essa Santorini que eu amo: a Santorini das contradições, dos locais mágicos e românticos, dos nativos tradicionais e complicados, das limitações e vistas maravilhosas. Um lugar onde o belo e o feio se trombam e se encontram a cada minuto é exatamente onde eu sinto EU. Afinal, para quem é metade grega, metade brasileira, nada mais apropriado do que um lugar que se aproxima e se afasta a cada instante, num bailar eterno das placas tectônicas!

E Deus sabe o que faz, como sempre 😉 Se fosse fácil viver em um local mágico como esse, o mundo inteiro mudaria pra cá 😉 Mas as maluquices de Santorini são para poucos e quando o verão vai embora, os que só querem ver o lado belo da vida, também vão. No inverno, ficam os loucos, os passionais, os insanos, os que entendem a beleza negra da ilha de Santorini!

Ella Santorini – Sagapau Poli kai ego eimai palli! 😉 Algumas fotos novas para vocês entrarem no clima!

vida em Santorini
Lulu em Santorini

vida em Santorini

vida em Santorinivida em Santorini

Vulcão, terremoto, vento e mar: bem-vindo a Santorini!

Eu tive a mágica oportunidade de viajar por toda a Grécia, norte a sul, leste a oeste. De todos os lugares que passei, escolhi um para chamar de “casa”: SANTORINI. Mas a sua família é de lá? Não. Você tinha amigos em Santorini? Não. Então foi por uma boa oportunidade de trabalho? Também não. E como é Santorini? Conta, conta!

Santorini, Grécia

Bem, se vocês me acompanham já sabem que Santorini fez parte da minha vida desde sempre (se não sabe, clique aqui). E foi bem depois de uma temporada tensa trabalhando na ilha de Corfu, que eu cheguei em Santorini. Depois de episódios tristes familiares, depois de perrengue financeiro, basicamente no esquema “contra tudo e contra todos”, eu cheguei de barco em Santorini no começo de um verão.

De cara, me apaixonei pelo lugar. Confesso que, inicialmente, tive medo de querer morar em um vulcão (ainda mais que a última erupção aconteceu nos anos 50) e demorei um pouco para me acostumar com o vento constante da ilha. Mas coloquei na cabeça (nos primeiros 5 minutos que cheguei no porto de Athinios) que iria fazer de tudo para morar na ilha do vulcão. Eu já tinha morado em outras ilhas gregas e tinha aprendido um bocado até ali. Achei que em Santorini seria tudo mais fácil, afinal, Santorini é a ilha mais famosa da Grécia!

Honestamente? No começo, morar em Santorini foi bem difícil. Não foi tão fácil arrumar um emprego legal e muitas pessoas nativas da ilha me olhavam de um jeito estranho, não amigável. Aconteceu que o destino foi me colocar para trabalhar e morar bem no meio de um dos bairros mais antigos e tradicionais de Santorini. Foi uma loucura: nada de turistas, nada de pessoas falando inglês, nada de ilha famosa. Aquela era a verdadeira Santorini, construída em cima do vulcão, sacudida pelos terremotos constantes, desenhada pelo vento forte e abençoada por um mar azul sem fim.

Lembro que um terremoto sacudiu a ilha logos nos meus primeiros dias. Eu estava caminhando na rua quando vi as pessoas correndo para fora das casas, assustadas. Naquela noite, os cachorros uivavam alto, o vento uivava mais ainda enquanto eu, no escuro, pensava que nenhum homem deveria viver em um vulcão. Aquele lugar era para pessoas insanas.

O tempo passou. E apesar do medo do desconhecido e das diferenças culturais eu acabei por conhecer gregos generosos, carinhosos e puros de coração. Por um bom tempo, a vida foi simples e tipicamente grega de ilha. Eu fazia coisas que nunca imaginei que faria e eu era feliz em Santorini. Aprendi e me acostumei a falar grego, aprendi a xingar como um grego, apreciei a música antiga da Grécia, ensaiei alguns passos nas comemorações. Ouvi as lendas da ilha de Santorini, arrepiei com o peso da tradição, adorei os sabores da culinária de Santorini, aprendi até como caçar e como me alimentar com o que a mãe natureza dava.

Eu descobri que meus melhores amigos e meus piores inimigos eram o vento e o mar. Se eles estavam zangados, eles poderiam mudar a vida dos seres humanos em Santorini. Se estavam em paz, os dias eram calmos e maravilhosos e o mar parecia coberto de azeite. Entendi que todos que viviam na ilha eram fruto de uma insana mistura explosiva, que éramos resultado de lava, mar, fogo, vento e céu. E não, aquele lugar não era para qualquer um. Seis terremotos depois e eu continuava lá. 8 anos depois e continuo indo para Santorini, todos os anos.

A verdade é que nenhum lugar é como Santorini. Chegar lá é encontrar o paraíso na Terra, é respirar aliviada, é entender que realmente o céu e o mar podem se confundir. E acabar, quem sabe, mergulhando nas águas das nuvens😉 É entender que o romance existe  e que envolve todos os amantes da ilha. É ver que o pôr-do-sol em Santorini é uma declaração de amor que Deus fez ao homens. É saber apreciar a simplicidade e magnitude da natureza. E quando me toquei disso, eu mudei completamente.

Hoje a Luana Sarantopoulos que você conhece é a Lulu que viveu em Santorini. Curtida no vento forte e impiedoso que sopra sem cansar na caldeira, amargurada pelas limitações do inverno da ilha e abençoada pelos raios do sol de verão mais bonito do mediterrâneo. Ah, e claro, apadrinhada e abençoada pelo vulcão de Santorini, o astro maior da ilha. Quando voltei lá para me casar, escrevi mais um capítulo inesquecível da minha história, simplesmente porque não existe nenhum outro lugar que possa me colocar mais perto de Deus.

Espero que vocês curtam Santorini o tanto que eu curti e ainda curto, todo ano. E fiquem à vontade para me perguntar o que passar pela mente😉 Meu email é luana.sarantopoulos@gmail.com Este espaço é todo nosso e aqui vamos compartilhar nossas experiências pela Grécia! Interessados em ler mais sobre a vida na ilha de Santorini e cultura grega atual, sugiro a leitura da minha trilogia Noiva de Santorini.

Para fechar com chave de ouro, apresento para vocês meu blog especial sobre Santorini, Lulu em Santorini, meu site especializado em Casamento em Santorini, casamentoemsantorini.com . Acesse para ler as novidades ou ainda acompanhe pelo facebook: Lulu em Santorini e Casamento em Santorini.

Beijos! E bora pra Santorini, leitores!

casamento em Santorini
Minhas fotos de noiva, casamento em Santorini
Santorini
Ruas de Santorini
casamento em Santorini lugares
Porto de Amoudi, Santorini